In memoriam - Ilda da Conceição da Silva Matos
n. 16 de Agosto de 1935, São Sebastião da Pedreira, Lisboa, Lisboa
c. 22 de Janeiro de 1960, Pena, Lisboa, Lisboa (civil)
f. 7 de Maio de 2022, Santo António dos Cavaleiros, Loures, Lisboa
nss. 7
Elogio fúnebre
Caríssima família, caríssimos irmãos;
Vão me perdoar não lhe dedicar muitas palavras bonitas no leito da morte que nunca lhe disse em vida. Se há coisa que a minha avó não foi e me ensinou a não ser, foi hipócrita, e não estaria a honrar a vida dela se agora o fosse nesta hora de maior sofrimento. Vou antes falar de alguns defeitos, que tal como todos os seres humanos também os tinha e que agora nos levam a refletir que os nossos problemas em vida são demasiado efémeros comparando com a despedida de alguém que amamos.
Da esquerda para a direita: Esmeralda da Silva Matos (nss. 15),
avó Ilda, e José da Conceição Maia (nss. 14). Circa 1945.
Era teimosa e tinha um feitio muito peculiar. Já no avançar da demência, praticamente todos os dias, teimava que a casa dela não era dela. Todos os dias insistia que ainda morava na Duque D’Ávila que era a casa onde, menina, viveu antes de ir para Angola. No tempo em que jovem patinadora ainda não tinha joanetes nos pés para se queixar. No tempo em que rapariga bonita, elegante e de boas família, fazia o trânsito parar quando saía à rua. Tinha de ter sempre razão, e eu nunca tive aos seus olhos para saber fosse o que fosse. Porque nunca trabalhei, nunca passei os horrores da guerra, e por isso, nem uma tigela de cerelac sabia fazer pela manhã.
Agora, que do outro lado nos vê, já deve compreender que ela, junto dos meus pais, já vê em mim maturidade. Desde o início até à sua condição frágil e demente, toda a vida participou da minha educação, enquanto cidadão e enquanto ser humano, e em plenos pulmões posso dizer com orgulho que esta mulher fez de mim um homem.
Da esquerda para a direita:
a avó Ilda, a minha mãe, o tio Luís, e o avô Vasco. Circa 1965.
A política não era o seu forte. Muitas vezes na sua casa em Chelas quando lá ia dormir, acordava-me de manhã e cantava músicas de autores comunistas como Zeca Afonso ou Manuela Bravo do tempo da revolução. Mas quando encontrava defeitos na sociedade dizia sem qualquer vergonha na cara que “no tempo de Salazar isto não acontecia!”. A sua verdadeira política era a família. Estivesse onde estivesse, fizesse sol ou chuva, todos os dias sem excepção, ia visitar Esmeralda, sua mãe, ao lar quando saía do trabalho. Dedicou também a sua vida a quem mais precisava, tendo sido uma das fundadoras do Colégio das Descobertas que acolheu meninos deficientes num mundo onde, com esta condição, vivem à margem da sociedade.
Apesar de nos dizer que o dinheiro do banco não era dela, mas que o banco lhe tinha dado para ela o guardar, sempre nos presenteava com um bitoque no café do Sr. António ou com um almoço aos sábados no restaurante chinês.
A minha avó educou-nos no diálogo. Um diálogo musical. O chinelo e a colher de pau cantavam até. Ela sempre nos dizia quando nos estávamos a portar mal que nos deixássemos de “partes gagas” e que como todas as mãe que levantam a mão a um filho dizia que “era para o nosso bem”. Mas no final do dia, depois de uma grande discussão, ia-nos bater à porta do nosso quarto e fazia a pergunta que nos repetia todas as semanas: “Oh camarada, queres ir ali abaixo à Doce Margarida?”.
Todos os Natais e aniversários as minhas avós competiam para saber qual das duas davam o presente maior aos netos, mas se há coisa que nos dava vontade de rir era o acumular de laços e papel de embrulho que guardava sempre para o ano seguinte. “Podia dar jeito para alguma coisa!”. Era isso e as embalagens de sopa e frango assado que comprava quase todos os dias no Intermarché, que foi acumulando ao longo de anos nos armários da cozinha. Ás vezes diziamos na brincadeira que ela devia ter sangue judeu de tão desconfiada que era às vezes. Quando demos vazão àquelas caixas todas ela comentou subtilmente que achava que os armários estavam um pouco mais vazios.
Avó Ilda com a minha mãe. Circa 2015.
Apesar de muita gente a conhecer, principalmente aqui na comunidade, não posso dizer que ela era propriamente uma vedeta famosa da sociedade portuguesa. Mas se havia uma estrela de cinema na minha conta de instagram era ela, com os vídeos e destaques que eu fiz e que hoje ficam para memória.
As nossas longas conversas sobre como mexer no telemóvel e tirar a notificação de mensagem na parte superior do ecrã eram uma dor de cabeça diária ter que lhe explicar todos os dias a mesma coisa à conta dos novos pacotes promocionais da “Vodofone”. Irritada, comentou que qualquer dia deitava “aquela porcaria” fora porque já estava “farta daquilo”. Deitámos as caixas de sopa e frango assado fora, doamos muita roupa dela quando foi para o lar e algumas mobílias para os monos para montar a cama articulada em casa onde ela infelizmente já não se deitou, e até hoje ainda não encontramos esse maltido telemóvel.
Não era uma pessoa de muitas emoções apesar de ter um sorriso bonito, excepto quando se enervava e esteve para ir embora sem dizer adeus. No caminho para o hospital fui pedindo: “Avó aguenta. Dá-me chance de chegar. Não te vás já.” e ao lado dela, como sempre em toda a vida, deu-me a oportunidade de lá estar antes de ir. Deu-nos o seu adeus com a família ao lado e para me confortar a minha mãe disse-me ao ouvido: “Agora temos que meter uma coisa na cabeça. Não a abandonamos. Estivemos com ela até ao fim.”.
Em honra de me ter oferecido uma guitarra portuguesa no último aniversário que esteve comigo, lhe dedico este poema de Fernando Farinha, intitulado de “Eterna Amizade”:
Pelas mãos de minha mãezinha,
Andei nos tempos de então,
Hoje como está velhinha,
É ela que anda pela minha,
Faço a minha obrigação.
Quase que perdeu o tino,
Pobre mão como mudou,
Que coisas há no destino,
Eu agora é que lhe ensino,
Tudo o que ela me ensinou.
Toda a radiosa alegria,
Na sua alma é defunta,
Ela que tudo sabia,
E que tudo me dizia,
Hoje tudo me pergunta.
Agora só peço a Deus,
Que neste mundo de escolhos,
Quando ela for para os Céus,
Seja eu quem feche os olhos,
Àquela que abriu os meus.
Até sempre, Avó.
Com muito amor, o teu neto Duarte.
Fotografia animada da avó Ilda (MyHeritage.com).

Querida avó!
ResponderEliminarTexto muito bonito, Duarte.
ResponderEliminarDescansa em paz Querida Avó Ilda.
LIndo texto Duarte, foi um privilégio tê-la conhecido, abraço.
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