Memórias dos meus avós: Angola 1972-1975 (3 de 4)

 




Memórias dos meus avós: Angola 1972-1975



Parte 3

Caos urbano 





Começou o tiroteio. As paredes era mais que balas.

O que é que aconteceu no 25 de Abril lá?
Não soubemos nada. Só dois dias depois é que soubemos: que o Marcelo Caetano tinha sido destituído, que ia para a Madeira, ele e o Américo Tomás, que era o presidente da República. Pronto, assim foi. 

Então, dois dias depois souberam…
Sabia-se que tinha havido qualquer coisa cá na metrópole. Mas como cortaram as ligações todas, não sabíamos nada. Então, dois dias depois, soubemos. Bem, o pessoal ficou todo contente mas uns dias depois ficou muito triste porque começou ali o tiroteio, começaram os pretos a atacar… a atacarem-se uns aos outros! Porque haviam os partidos: o FNLA, o MPLA, e a UNITA. Eram os três. E, então, guerreavam-se entre eles, nos musseques. Começaram-se a guerrear, começaram-se a matar, e a gente tinha medo. Aquilo não era contra nós, mas a nossa tropa era enviada imediatamente para lá. 

Depois do 25 de Abril, começou aquele tiroteio todo. Depois as tropas eram formadas pelo MPLA, a FNLA, e pela UNITA. E pronto. Aquilo começou por ali assim. Nós começámos… nunca mais saí à rua. 

Figura 4 - Edifício, em Luanda, destruído por confrontos entre a FNLA e o MPLA


Logo com o 25 de Abril?
Pouco tempo depois. Nunca mais saímos, porque a gente tinha medo. Tinha medo, porque os pretos atacavam-nos para nos roubarem.

Todos os pretos?
Era uma falange deles.

E então ia um táxi de manhã buscar-me a casa, a mim e ao teu avô, para nos levar ao hotel, e, à noite, ia-nos buscar para trazer a casa. Nunca mais pudemos sair para parte nenhuma. Já não tínhamos direito a andar na cidade ou em parte nenhuma porque... a gente até se dava bem. 

Um dia o sobrinho dessa porteira… já não havia comida: não havia pão, não havia nada, nada, nada, e eu telefonei para o hotel e disse «Olhe, precisava de pão que eu não tenho pão para dar aos miúdos». Nós tínhamos um posto de pão, mas depois do 25 de abril a gente ia para a fila, mas os pretos vinham todos lá de trás e passavam à frente. A gente nem piava. Aquilo era um terror. Então, quando chegávamos à beira, já não havia pão. O patrão disse: «venha cá». Mas nós tínhamos mandado pôr uma grade. 

Eu fui ao Trópico com o sobrinho dessa porteira e, quando saímos, a Maria Alice fechou a grade por dentro. Começa o tiroteio. 

Com morteiros…
Bem, fizeram um buraco no chão, que nem queiras saber. Ali no chão era uma cratera enorme. As bazucas… Ai, passámos lá um mau bocado. Ai… 

Quando começou o tiroteio, não tivemos mais nada: metemo-nos debaixo de um carro. Quando aquilo melhorou, é que fomos lá buscar. Mas depois ficámos lá à espera até que de cima da minha casa me dissessem que já tinha acabado o tiroteio, para podermos vir. Pronto lá viemos. 

E, quando viemos embora eu disse:
- Eu venho-me embora.

E o patrão, o Serafim Andrade, dizia assim
- Deixem-se estar. Venham aqui para o hotel.
- Não, não, não, não. Eu para ir para aí… – disse eu.

O hotel continuou a funcionar?
Continuou a funcionar. Mas eles depois do 25 de abril, os pretos tomaram conta do hotel. E o governo de transição de Angola, tomou conta daquilo. Ocuparam aquilo tudo. Nós íamos à casa de banho, tínhamos um fulano de metralhadora. Íamos tomar o pequeno almoço, estava outro fulano de metralhadora. Quer dizer, andávamos assim. Por isso, resolvemos vir embora. 

Quando é que decidiram vir embora?
Olha, decidimos, porque no Natal de 1974, houve um tiroteio muito grande e nós fomos jantar a um barco que estava lá ancorado – que era o Príncipe Perfeito – onde o teu avô tinha um primo que era o chefe da segunda classe. Mas tinhas que ir assim abaixadinho: os tiros eram mais que muitos, estilhaçavam os vidros; aquilo era um terror. 

O Príncipe Perfeito veio-se embora, carregado de tudo o que havia, menos as coisas dos portugueses, porque havia o Rosa Coutinho, havia… eram aqueles. 

Porque... olha: o Almeida Santos, que nunca tinha ido a Luanda, mas foi a Luanda e arranjou lá cinco carros e então o barco vinha carregado com as coisas deles e as dos outros ficavam no porto de Luanda. Não pudemos embarcar as coisas, não pudemos trazer nada. 

Então resolveram no Natal de 74 vir embora…
Resolvemos vir embora, mas aquilo havia uma coisa que era o IARN1 que repatriava as pessoas, mas a gente tinha que esperar. Eu tinha dinheiro no banco, agarrei em 95 contos e comprei as passagens de avião para vir embora. Mas aquilo era assim: a gente nunca tinha a certeza… Deram-nos o dia 9 de Dezembro para virmos mas não apareceu o avião, e no dia 10 de Junho viemos embora. 

Não havia aviões porque não chegavam para tanta gente. Só de Luanda vieram 500 mil pessoas. Era a ponte aérea da TAP e da TAAG, que era a de Angola mas que era requisitada pela TAP para trazer as pessoas. 

No dia 10 de Junho, chamámos um táxi, fomos para o aeroporto, abaixadinhos, nos tapetes do táxi por causa do tiroteio... e fomos para o aeroporto. 

E, quando chegámos lá, aquilo estava uma confusão, porque a Sudafrica2, que era uma companhia aérea a SAA, tinham-lhe bombardeado a escada para entrar para no avião, e eles ficaram com muito medo e então aquilo havia muito cuidado. Aquilo umas vezes aparecia, outras vezes não aparecia. 

Então, lá conseguimos entrar para o avião. Não levámos nada. Eu tinhas umas caixas, umas coisas para trazer, e ficou tudo no cantinho do aeroporto porque o avião já vinha de Moçambique e já trazia carga a mais. Então não nos deixaram trazer. Ficaram lá num cantinho do aeroporto. Era para embarcarmos às 7 da manhã. Depois era às 10. Depois era às não sei quê. E depois foi à noite. O avião levantou voo com as luzes todas apagadas, com tudo às escuras. Só depois de estar à altitude de 12 mil metros é que acenderam as luzes, que era para não sermos atingidos pelas antiaéreas. 

E lá viemos.


1 Instituto de Apoio aos Retornados Nacionais.
2 Refere-se à Linhas Aéreas Sul-Africanas.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

In memoriam - Maria Teresa Gomes de Lima Coelho Machado

Raizes genéticas - primeira investigação

O meu brasão de armas