Memórias dos meus avós: Angola 1972-1975 (2 de 4)

 




Memórias dos meus avós: Angola 1972-1975



Parte 2

Em Angola, em paz 



Chegámos lá no dia 23 de Dezembro. 

Quando lá chegaram em 72, já se viam as tropas na cidade?
Via-se, via-se. Mas não tínhamos nada. A gente passava de noite e de dia e não havia nada. Não havia terrorismo. A gente não sabia o que era terrorismo. Eu vinha na camioneta, à meia-noite, para casa – e, às vezes, a camioneta era só pretos – eu era a única branca, eles levantavam-se para me dar o lugar… era, era… vivíamos bem. Vivíamos muito bem. Depois do 25 de Abril é que foi o pior. 

Não havia terrorismo na cidade. E mesmo fora da cidade – havia sítios, aqueles da FNLA que eram terríveis, e os do MPLA… Porque era assim, eles [as tropas portuguesas] para irem para o mato ou para irem de Luanda para outro sítio qualquer, tinham de ir com um comboio de tanques a acompanhar aquilo. Mas se levassem duas grades de cerveja, não havia problemas. Os terroristas o que queriam era comida, bebidas, tabaco. E eles estavam na beira da estrada à espera, e os nossos davam-lhes aquilo e «então até à próxima», quando viessem já sabiam. Isto, antes do 25 de Abril. 


Bom, quando chegámos, não conseguimos abrir os caixotes todos, já era em vésperas de Natal. E o senhor da alfândega perguntou-me: 

- Eu não vou revistar nada. A senhora traz armas?
- Não, trago agora armas.
- Então, olhe, está despachada.

Ele deu-me aquilo tudo. Mas tive que arranjar uma camioneta para trazer do porto de Luanda para o Prenda e tinha que abrir os caixotes. Bem, juntou-se ali logo uma molhada de pretos que queriam os caixotes, que era as tábuas para fazerem uma barraca.

No dia de Natal, não havia praticamente nada para a gente comer porque o bacalhau que foi não estava demolhado; foi um queijo que ainda estava dentro de um caixote. Mais umas coisas que a gente levava, estava tudo por abrir nos caixotes. Pronto, de maneira que foi assim um jantar de Natal um bocado para o esquisito. Depois no dia seguinte já abrimos tudo. O calor era mais que muito. Chovia torrencialmente quando chegámos a Luanda. O chão fumegava, porque estava muito quente.

Era Verão lá.
Era Verão. No Inverno lá, é que é o nosso Verão. O nosso Verão é lá Inverno. O Verão lá é em Dezembro. Aquilo fumegava por todos os lados. Era um calor… há não sei quantos anos que não havia tanto calor. Bem, cheguei ao porto de Luanda…

Este andar do sr. Rosmaninho era só para o avô Machado, quando ele lá chegou ou…
Foi só para nós. Era no bairro do Prenda, apartamento 4, e era um duplex. Pronto, mas como estava um calor desgraçado, nós não tínhamos… a única coisa que eu não tinha levado para Angola foi o frigorífico. Tinha levado o fogão, a máquina de lavar roupa, aquelas coisas todas. Eu levei 12 caixotes monstros. Três mobílias de quarto. Aquilo tudo. Mas não tinha frigorífico. Eles lá em Angola, chamavam-lhe «geladeira».


Figura 3 – Bairro Prenda, década de 70

Fazia um calor dos diabos. Então o teu pai ia… Olha vai ali ao vizinho dali: «Olhe nós chegámos hoje da metrópole e não temos geladeira e queríamos água fresca para beber.» «Sim, senhor, faz favor.» Mas aquilo, acabava-se a água, não é? A água fresca acabava. Olha, agora vai a outro vizinho, para não ir sempre ao mesmo. E lá conseguimos…

No bairro Prenda era só brancos ou também havia pretos?
Não, era quase tudo brancos. Era um bairro muito bonito. Eram todos duplexs, de 4 andares. O nosso era… subia e depois tornava a subir. A vizinha do lado, descia e tornava a descer.

Conclusão, foi-se pedindo a água. Entretanto conheci lá uma senhora que era a dona Mariazinha, que era muito nossa amiga, já tinha conhecido o teu avô.

Eles lá [em Angola] iam a que escola?
No princípio foram para a escola pública, que era mesmo em frente ao nosso prédio. O prédio era aqui e a escola era ali. Mas depois, a Isabel todos os dias vinha para casa e dizia assim: «queria uma borracha», «queria uma borracha», «queria um lápis». «Então mas ainda ontem te dei um». «Ah, não sei…» ficava assim. Depois eu soube que havia lá uns pretos miúdos: «dás-me isso, se não eu mato-te». Ela ficou aterrorizava. 

O nosso prédio era assim. Aqui à frente havia um colégio que era o Colégio João de Deus. Eu meti-os lá no Colégio. Pronto, e já nunca mais faltou nada. Depois tive que os transferir para cá. O teu pai fez a 4ª classe lá. Depois foi para a escola preparatória. E depois havia a porteira do prédio, uma rapariga nova, que tinha dois ou três filhos, e eles andavam todos juntos. A porteira ia levá-los e ia buscá-los e olhava por eles durante o dia enquanto eu estava no Trópico. Eu pagava-lhe, ela dava-lhes de comer, e estavam todos contentes. 

Mas não havia lá um preto que te ajudava?
Havia um preto que era o José Luis. «sra., o que a sra. precisar...». Ele era assim pequenino, de pernas tortas, mas o que eu precisasse, o pretinho lá ia. Um dia disse-lhe: 

- Olha eu vou-me embora para a metrópole.
- Ai, sra., podias-me levar.
- Não, eu não te posso levar, como é que eu te posso levar? - Ficou assim muito triste. Eu disse:
- Olha, eu tenho a casa posta; o que precisares vai lá buscar.

Mas ele não tinha transporte. E então, um dia, aparece-me lá de bicicleta: foi buscar o colchão. Foi a única coisa que ele levou. 
E quando chego à porta da entrada, à porta de serviço do hotel, diz-me o chefe do serviço:

- Tem aqui uma coisa para si.
- Uma coisa para mim?
- Sim, uma coisa que o José Luís deixou para si.

Então o que é que ele tinha ido? Tinha ido comprar um frango congelado, lá a uma loja qualquer, e deixou para mim. Eu disse: 

- Mas ó José Luís, eu não preciso do frango.
- A senhora aceita, aceita senhora.

Parece que estou a ver o rapazinho. Ele era um homem, tinha filhos. Mas era pequenino.
Um dia eu disse-lhe assim:

- Há tanto tempo que eu não te vejo, onde é que tu andavas?
- Ai senhora, fui num óbito, à minha terra.

Passado um mês... então onde anda o José Luis? «Fui a um óbito, sra.». Outro? Ele tinha sempre óbitos. Então era, quando morria um tio, um avô, um primo, ele ia ao óbito. Ele era engraçado.

- A senhora precisa de alguma coisa?
- Olha, precisava de limpar os vidro da marquise.
- Está bem senhora, eu vou lá.

Apareceu lá, limpou-me os vidros, que era uma marquise muita grande. Depois eu disse:

- Bem, agora vais almoçar aqui, depois vais-te embora.
- Ai senhora, vou almoçar contigo?
- Vais.

Bem, todo o hotel soube que ele tinha comido à mesa com a sra. Mas eles comiam na mesma sala que nós, no refeitório. Mas não era a mesma coisa.

Viviam separados, pretos e brancos, no dia-a-dia?
No hotel vivíamos todos juntos. Mas, depois, eles iam para o musseque e nós íamos para as nossas casas. Mas olha que tinha lá o chefe do restaurante do hotel que vivia no musseque, para guardar dinheiro para vir embora.

- Para se ir embora, vive ali no musseque numa barraca?
- Ai, tem que ser, senhora, tem que ser – era branco, da Amadora – tem que ser para poupar o dinheiro.

Eles viviam na miséria para trazer o dinheiro.

Quando foste para lá, ainda não tinhas emprego?
Eu não. Mas no dia 2 de janeiro meti pés a caminho. Vim ao centro de Luanda, e fui à confeitaria... Fui lá saber se não havia emprego. Então apareceu-me um senhor que me disse que era do Porto, que tinha um café no Porto, na Avenida dos Aliados e que me dava emprego. Eles andavam lá sempre a ver quando é que chegava lá uma pessoa para lhe deitarem a mão para ficarem com os empregados. 

Só brancos?
Só brancos. Mas, no hotel, nós éramos 153, e havia pretos e brancos.

Mas, aqui, quando procuravam empregados, só procuravam brancos ou também procuravam pretos?
Não, também pretos. Era igual, não havia diferença. Só que, claro, davam preferência aos brancos porque os brancos trabalhavam melhor. E sabes porquê? Havia um preto na portaria. Vinha um senhor com umas malas e o preto estava ali, não era capaz de descer do passeio e ajudar o sr. a trazer as malas. Não. O senhor dava-lhe uma gorjetazinha e o preto ia dormir para a casa de banho, já não trabalhava mais. (Risos) Malandro, malandro, malandro.

Então fui lá e perguntei: «Então quanto é que o senhor paga?» Foi logo o que eu perguntei, quanto é que era o ordenado. Diz ele assim: «O ordenado são 2 contos por mês». E eu disse: «isso é muito pouco». «Ah, mas é o preço que estamos a praticar, não sei quê...». «Está bem. Eu vou experimentar». E fui para essa confeitaria. Aliás há uma aqui em Odivelas que tem o mesmo nome, que foi duns que vieram de lá: “A Presidente”.

Então, eu fui para lá trabalhar mas não queria aquilo. Aquilo era estar no balcão. Eu trabalhava das 8 às 12 e depois das 16 às 20. E tinha dois dias por semana que era das 12 as 16 e das 20 às 24. Tinha de ir de camioneta para casa. Não tinha carro. Ainda eram uns quilómetros. Lá fui trabalhar para lá e pronto, não estava lá mal, mas eu não queria aquilo. E um dia disse ao teu avô:

- Então como é? Não há lá emprego no hotel para mim?
- Ah, eu vou falar com o sr. Nobre da Costa, que é o chefe do pessoal.

Falou e disse:
- Olha, o Nobre da Costa diz para lá ires falar com ele.

E eu fui lá. Fui lá e ele esteve a fazer-me perguntas e foi-me apresentar ao chefe da contabilidade. E disse-me assim.

- Pronto, a sra. fica cá.
- Então e quanto é que eu venho ganhar?
- Vem ganhar 3 contos1 e comer: pequeno-almoço, almoço e jantar. Sábados e Domingos e tudo.

Isto foi em que altura? Quanto tempo depois da confeitaria? 
Eu na confeitaria estive 2 ou 3 meses. Também não estive grande tempo.

Como é que se chamava o chefe da contabilidade?
Era o Daniel Almeida. Que já morreu… Quando vim embora, trouxe-lhe (para Lisboa) uma bebé com 9 meses que era a filha dele. Que ele ainda lá ficou.

Então, fui lá falar com o Nobre da Costa. E quando entrei na contabilidade, no meu escritório, estava lá um rapaz, que era o morgadinho, que disse assim: «Epá, nós agora vamos ter aqui uma velha? Como é que é isto?» 

E até lá fiquei. Éramos todos amigos. Na contabilidade éramos 10. Era uma secção muito boa. E dávamo-nos todos muito bem e o chefe também. Todos os meses íamos comer marisco, fazíamos um jantar de marisco fora, não era lá no hotel, era num restaurante. Depois, fui para lá trabalhar, estava lá muito bem e um dia, o sr. Albano Marques – que era o director do Hotel Trópico – mandou-me chamar. 

Não era o sr. Serafim?
Não. O Serafim não mandava nada. Era o patrão mas ele delegava tudo no director e no Almeida.

«O sr. Albano Marques quer falar consigo». Tinha sido director do Hotel Eduardo VII, aqui em Lisboa, que acho que ainda existe, ao pé da maternidade Alfredo da Costa. E digo assim: «o que é que será?» Ele quando mandava chamar um empregado, das duas uma: ou era para fazer um elogio ou era para despedir. Que aquilo era assim. 

E eu entrei… ainda perguntei ao Almeida, ao chefe da contabilidade:
- Mas o que é que o sr. director me quer?
- Ai, não sei, dona Teresa, vamos lá. – Mas ele já sabia.

Cheguei lá, ao gabinete dele, e ele disse-me assim:
- Olhe, como sabe, o Artur (tesoureiro) vai-se embora, e eu preciso de uma pessoa de confiança para assumir o cargo dele. E, portanto, a sra fica como tesoureira. 
- Bem, eu trabalhei no Porto, no Gomes de Castro, que são meus primos, durante um tempo, e tinha os dinheiros todos e tinha isso tudo. Só que aqui, isto tem uma dimensão muito maior do que aquilo tinha. Não sei, eu posso experimentar. 
- Não, não. Não pode experimentar, porque eu vou-lhe dar um ordenado muito maior e se a senhora não se der bem ou não quiser, eu não lhe posso baixar a categoria.

Ficou combinado assim. Então passei a ganhar 8 contos e 300. E comer. Nesse tempo era muito dinheiro2

O avô fazia o quê?
O teu avô, era na portaria. Desde o início. Estava na portaria. Então quando vinha um cliente, parava o carro à porta, ele tirava as malas do cliente, punha-as dentro da secção e ia-lhe arrumar o carro na garagem que nós tínhamos atrás do hotel. Bem, ele recebia uma média de 20 contos por mês só de gorjetas3. Era muito dinheiro... Para quê? Valeu a pena? 

Bem, comecei a trabalhar. Eles gostavam muito de mim. O Albano Marque também gostava, o director. 

Era um hotel de quantas estrelas?
Era de 5 estrelas. Era o único hotel de 5 estrelas que havia. Eu depois… Fizeram o aniversário do hotel. Fizeram uma grande festa. Era a família trópico. Era o que dizia o director. 

Isto já em janeiro de 74…
Sim, janeiro de 74. Era a família Trópico. E aquilo era tudo muito bom… quando rebentou o 25 de Abril. Começou a nossa...



1Corresponde, actualmente, a aproximadamente 500,00€ mensais
2Corresponde, actualmente, a aproximadamente 1.700,00€ mensais.
3Corresponde, actualmente, a aproximadamente 3.390,00€ mensais.

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