Memórias dos meus avós: Angola 1972-1975 (1 de 4)
Memórias dos meus avós: Angola 1972-1975
Parte 1
Da metrópole para Angola
No dia 15 de Agosto de 1972 o avô Machado foi de avião para Luanda, onde tinha lá uma pessoa conhecida que lhe arranjou um andar que era dele próprio. Era o Sr. Rosmaninho, que era de Avanca, lá em cima ao pé de Ovar. E o Sr. Rosmaninho era casado com uma professora e tinha uma casa no bairro do Prenda. Então, o Machado foi, e quando lá chegou ele disse-lhe: Sr. Machado tem aqui este andar...
Porque é que ele foi?
Foi porque... olha, quis ir.1
Bateu-me um homem à porta e disse-me assim:
- Olhe, eu vinha ver o carro.
- Que carro?
- Não têm um Renault?
- Tenho, mas não está para vender.
- Está, está, que tinha um anúncio no jornal. E eu respondi. Fiquei de cá vir hoje vê-lo.
- Então, tem que esperar pelo meu marido para ele dizer-lhe.
Ele chegou e eu disse:
- Então tu vais vender o carro e não me dissestes nada?
- Ah, é para… eu preciso do dinheiro para comprar a passagem de avião para Angola.
Mas então, sabias que o avô ia para…
Eu não sabia que ele ia para angola.
Quanto tempo antes do 15 de Agosto é que apareceu o homem do carro?
O homem apareceu para aí 8 dias antes. Pronto. Ele lá comprou a passagem. Foi. A passagem era de avião e era mais cara porque não sobrevoava África: ia por mar. Pronto, no dia 15 de Agosto fui levá-lo ao aeroporto, de Pedras Rubras2, e ele lá foi para Angola.
Chegou lá e o sr. Rosmaninho disse-lhe assim: «Olhe, casa tem aqui. Agora, emprego, desenrasque-se».
O Machado foi e soube que estavam a construir o Hotel Trópico, um hotel de 5 estrelas, na Avenida Luís de Camões, em Luanda, junto… abaixo um bocadinho do mercado da Maria da Fonte. Estava lá o dono do Hotel. Era um senhor que também tinha uma vidraria. O senhor era do Porto e tinha uma vidraria, e tinha vidraria e ferramentas e montou a casa igual em Luanda.
O sr. Rosmaninho, que era o tal senhor de Avanca, disse:
- Olhe o senhor tem aqui um andar e enquanto não estiver empregado, não paga renda. Quando o sr. estiver empregado, então o sr. começa-me a pagar uma renda e a gente resolve.
Figura 1 – Hotel Trópico, década de 70
(imagem do domínio público da W.W.W.).
Ele foi. Foi a essa vidraria ao sr. Serafim Andrade que era o que estava a construir o hotel e ele perguntou:
- O senhor não tem aqui emprego para mim? - Não. Mas vou ter o hotel que, no dia 31 de janeiro vai ser inaugurado.
De 73?
Sim, 31 de Janeiro de 1973. Exactamente.
- ...e você vá lá inscrever-se e já pode contar com emprego. Esse senhor, o dono do hotel, era um senhor fora de série. Arranjava emprego a toda a gente. As pessoas queriam montar uma oficina e iam falar com ele... «sr. Rosmaninho, eu queria montar uma oficina mas não tenho dinheiro.» «Não faz mal. Você veja lá o que é que precisa, leve e quando começar a trabalhar começa-me a pagar». Ele era deste género. Já morreu.
Então, o sr. Machado lá foi para Angola. E em Dezembro era para eu ir.
Ele arranjou emprego na Angola Comercial. Era uma casa de ferragens. Mas havia lá um preto que era muito invejoso, que não queria que dessem emprego a nenhum branco e então um dia (acho que) tirou uma catana de baixo do balcão e ameaçou o teu avô. E ele pegou e disse: «Pronto, então eu vou-me embora e acabou. Não quero mais nada aqui». Era nessa firma Angola Comercial.
Então foi para o Trópico. No dia 31 de Janeiro inaugurou-se o Hotel Trópico e ele foi para lá.
E eu, no dia 3 de Dezembro, era para ir para Angola mas não fui porque estava a chover muito – chovia há 10 dias – e o barco (Infante Dom Henrique) tinha que descarregar o trigo – ou milho, já não sei bem – mas como chovia muito não podia. Então, em vez de eu ir no dia 3 de Dezembro, fomos no dia 13 de Dezembro.
E levámos 10 dias.
Figura 2 – Paquete Infante Dom Henrique, década de 60
(imagem de https://restosdecoleccao.blogspot.com).
Eu, o Paulo (teu pai), a Luísa, a Isabel, e a Maria Alice3.
Tínhamos um camarote para os 5, no barco. Um camarote só para nós. Tinha 2 beliches e tinha um berço, porque a Isabel tinha 3 ou 4 anos.
Eu conheci o Cesário4 quando íamos para Angola de barco. Era ele e mais uns rapazes, e juntavam-se no nosso camarote: um ficava a tomar conta e o outro ia à cozinha roubar. Roubava vinho, roubava tudo.
Aqui o que é que tinha ficado? Tinha ficado alguma coisa?
Aqui ficaram uns sofás. Eu dei-os não sei a quem.
E mais nada.
Entreguei a casa ao senhorio.
2 Actualmente chamado Aeroporto Francisco Sá Carneiro, ou, simplesmente, Aeroporto do Porto.
3 Maria Alice é uma prima.
1 Um residente idoso de Oriz (Vila Verde, Braga) fez saber que o avô Machado foi para Angola como emigrante, como outros iam, por exemplo, para a França.
2 Actualmente chamado Aeroporto Francisco Sá Carneiro, ou, simplesmente, Aeroporto do Porto.
3 Maria Alice é uma prima.
4 Militar da Força Aérea que, mais tarde, relatou tiroteios no Bairro Prenda bem como noutras zonas de Luanda.

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