Fontes de informação genealógica

Uma das perguntas mais frequentes que me fazem acerca da genealogia é onde se pode encontrar a informação. Por outras palavras, quais são as fontes?


A primeira fonte são os vivos: perguntar aos avós ou bisavós quem eram os antepassados deles. Por exemplo, um avô da década de '30 há-de lembrar-se dos seus avós nascidos na década de '70 do século XIX. Toda essa informação é preciosa para começar a pesquisa. De facto, recolher as informações referentes ao século XX é a parte mais difícil do processo, uma vez que não são facilmente acessíveis. Um facto curioso sobre esta fonte é que não é cem por cento fiável. É comum um avô passar a vida toda a ter por certa uma informação que na realidade é falsa (exp.: a freguesia de naturalidade do pai).

Uma vez recolhida a informação referente ao século XX, é possível continuar com a segunda e principal fonte de informação. 


A segunda e principal fonte para a genealogia em Portugal são os assentos da Igreja Católica. 

Portugal é uma nação maioritariamente Cristã Católica desde a sua génese. Assim, a história de Portugal e a história da Igreja estão intrinsecamente ligadas.

Entre 1545 e 1563 dá-se o chamado Concílio de Trento: uma reunião de suma importância realizada pelas mais altas autoridades da Igreja para resolver os assuntos urgentes da época. Este Concílio decreta a obrigatoriedade de registar os eventos mais importantes da vida cristã dos paroquianos, ou seja registar os Baptismos, Matrimónios, óbitos, entre outros.

«Terá o pároco um livro, no qual escreverá os nomes dos esposos, e das testemunhas, e o dia, e lugar em que o Matrimónio se contrai, cujo livro guardará em seu poder com cuidado.»
Concílio de Trento, Sessão XXIV (Decreto da Reforma do Matrimónio, Cap. 1)

Este decreto teve como efeito a acumulação de registos e informações desde o século XVI, ainda que possam não existir em todas as paróquias/freguesias.

Os livros de assentos que nos chegaram foram aqueles que, ao longo dos séculos, sobreviveram a água (chuva, inundações, humidade), fogo (exp. incêndio causado pelo terramoto de 1755), furto (inclusive por parte de genealogistas), guerra (invasões francesas, guerra civil), desgaste do tempo (algumas tintas desaparecem com o tempo e os registos ficam elegíveis), etc. Entre os que nos chegaram, existem também registos cuja caligrafia os torna muito difíceis de ler.

De grande utilidade é o índice de registos realizado por João Ventura, tombo.pt


A terceira fonte mais importante são as árvores de costados de famílias brasonadas. Por diversas razões, assumia-se que pessoas da nobreza deveriam casar com pessoas de sangue igualmente nobre. Assim, era do interesse destas famílias manter uma árvore genealógica que demonstrasse essa consaguinidade com a nobreza. Actualmente, ao fazer uma investigação genealógica, pode dar-se o fenómeno de entroncar numa árvore de costados já feita. Em relação a estas árvores já feitas, salienta-se o trabalho de alguns investigadores em condensar esta informação toda em obras enciclopédicas, em particular a obra "Nobiliário de Famílias de Portugal", de Felgueiras Gayo.

Nobiliário de Famílias de Portugal, Felgueiras Gayo.
(Imagem do domínio público da World Wide Web)

A quarta fonte consiste em qualquer documento que forneça informações genealógicas, como inventários orfanológicos, ou inquirições de genere.


Existem ainda outras obras que, apesar de não conterem informações do foro genealógico, podem ser muito úteis para resolver casos bicudos, como, por exemplo, as Memórias Paroquiais de 1758.

Este documento consiste num inquérito realizado em 1758, por ordem do Marquês de Pombal, para saber o ponto de situação da Nação sob vários aspectos. Apresento algumas das perguntas deste questionário, a ser respondido pelos párocos:

1. Em que província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence.
2. Se é d’el-Rei, ou de donatário, e quem o é ao presente.
3. Quantos vizinhos tem, e o número de pessoas.
4. Se está situada em campina, vale, ou monte e que povoações se descobrem dela, e quanto distam.
5. Se tem termo seu, que lugares, ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem.
6. Se a Paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, e todos pelos seus nomes.
7. Qual é o seu orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem Irmandades, quantas e de que santos.
8. Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem.
9. Se tem beneficiados, quantos, e que renda tem, e quem os apresenta.
10. Se tem conventos, e de que religiosos, ou religiosas, e quem são os seus padroeiros.
11. Se tem hospital, quem o administra e que renda tem.
12. Se tem casa de Misericórdia, e qual foi a sua origem, e que renda tem; e o que houver de notável em qualquer destas coisas.
13. Se tem algumas ermidas, e de que santos, e se estão dentro ou fora do lugar, e a quem pertencem.
14. Se acode a elas romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes.
15. Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem com maior abundância.
16. Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta.
17. Se é couto, cabeça de concelho, honra ou beetria.
18. Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas.
19. Se tem feira, e em que dias, e quanto dura, se é franca ou cativa.
20. Se tem correio, e em que dias da semana chega, e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra aonde ele chega.
21. Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do Reino.
22. Se tem algum privilégio, antiguidades, ou outras coisas dignas de memória.
23. Se há na terra, ou perto dela alguma fonte, ou lagoa célebre, e se as suas águas tem alguma especial virtude.
24. Se for porto de mar, descreva-se o sitio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir.
25. Se a terra for murada, diga-se a qualidade dos seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação. Se há nela, ou no seu distrito algum castelo, ou torre antiga, e em que estado se acha ao presente.
26. Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em quê, e se está reparada.
27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório.


Excerto de Memórias Paroquiais 1758 - freguesia do Coucieiro, Vila Verde, Braga.

Apesar de todas as fontes disponíveis, há muitos segredos que foram levados para o túmulo: há muitos pais incógnitos.

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