Francisco Gomes Ribeiro
n. ~1650, Santana de Carnota, Alenquer, Lisboa
c. ~1680
f. 25 de Dezembro de 1738, Rio de Janeiro, Brasil
nss. 3022
Esta brevíssima biografia, da autoria de Roberto Menezes de Moraes, consta no artigo entitulado Outras visões para a observação de algumas das famílias que atuaram no Vale do Paraíba Fluminense durante o Ciclo Cafeeiro, (pag 430).
Francisco Gomes Ribeiro era natural do lugar da Albufeira, Santana da Carnota, Patriarcado de Lisboa, e se estabeleceu como comerciante no Rio de Janeiro colonial, onde morreu nonagenário, em 25 de dezembro de 1738, ostentando o cobiçado título de cavaleiro do Hábito de N. S. Jesus Cristo, tendo sido também provedor da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.
Ao falecer deixou uma fortuna considerável. Como viveu nos séculos XVII e XVIII, seus traços biográficos são muito tênues, e por ter influência fundamental na história e genealogias destes dois grupos de notáveis cafeicultores fluminenses, teve também suas lembranças apagadas, porque se a revelação de sua história para os Ribeiro de Avelar era indiferente, para o brilho genealógico dos Werneck não o era, e por isso, quando no fim do século XIX e início do XX, uma dupla de genealogistas, o monsenhor Antônio Alves Ferreira dos Santos e André Peixoto de Lacerda Werneck, os pioneiros na busca da história da família Werneck 5 , eles trataram de apagar os rastros do velho capitão-mor, conforme lamentava o também genealogista Francisco Klörs Werneck: “ Um neto do Barão, Dr. André Peixoto, andou pesquisando antes de nós, há muitos e muitos anos, e o que sucedeu é que faltam na Sé do Rio as folhas......”
O mesmo genealogista Francisco K. Werneck, por sua vez, teve também acesso a um documento muito importante, não visto pela dupla pioneira, cujo original ele denomina de fragmentos 7 , mas que visto pelo autor em suas mãos, na década de 1980: era identificável como duas páginas extraídas do livro competente de óbitos da Igreja da Candelária, com o lançamento do testamento do capitão-mor Francisco Gomes Ribeiro.
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Segue-se a transcrição de um auto de nomeação de Francisco Gomes Ribeiro para a capitania de Cabo Frio (Rio de Janeiro, Brasil). O original deste documento encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.
Dom Pedro [?] faço saber aos que esta minha carta patente virem que tendo respeito aos serviços que Francisco Gomes Ribeiro me tem feito no estado da Índia no espaço de nove anos contínuos desde seiscentos sessenta e cinco até a de seis centos setenta e sete em praça de soldado, sargento de mar e guerra, Alferes Ajudante da Armada do Estreito1 e Capitão de infantaria por patente do general do mesmo estreito, embarcando-se em o referido tempo em oito armadas e achando-se em tudo o que mais obraram no mar e na terra e no estreito de Ormuz2, particularmente na tomada de oito barcos de inimigos, entrando neles dois de Meca com grosso cabedal de que resultou grande crédito às armas portuguesas e grande interesse à fazenda Real, em Novembro de seis centos sessenta e sete, entrando um poderoso exército do [Senagy] nas terras de [Bardis], ajudou a lançar fora das ditas terras ao inimigo obrigando também com a sua armada no Rio de [Baçorá ou Chaporã] até se por em fugida com perda de um barco carregado de fazendas, achando-se com o general Dom Jerónimo Manuel na Costa da Arábia nas muitas ocasiões que ali houve com os arábios, estando três dias à bateria com a Fortaleza de Mascate3 tomando-se-lhe em vários recontros seis barcos, seis que se lhes queimaram e outros que levaram em terra, caindo o mesmo Arábio com vinte e cinco navios buscar o dito general tendo vista dele se pôs em fugida e tornado segunda vez com dezasseis naus se pelejar com ele no Porto de [Corego ou Congo] por espaço de duas horas levando o inimigo de presa uma caravela nossa que se lhe tirou das mãos com muita perda sua procedendo com muito valor enquanto durou a batalha e com o mesmo se haver no castigo que o general João Correia de Sá deu nas terras do Arábio queimando-se-lhe a povoação de Guisira de mais de seiscentos vizinhos e perto de oitenta terradas e ferranquês com fazenda de muita consideração dos naturais da terra sujeitando-se os portos de Barem, a Califa por haver muitos anos estavam rebeldes sem pagarem o tributo que antigamente se pagava à fazenda Real, achando-se da mesma maneira na queima de dois barcos do Imã e na tomada de mais três barcos de alto bordo do Canara, na queima de duas terradas do Arábio e recolhendo-se para Goa o dito general [?] depois das facções referidas deitar o dito Francisco Gomes no Congo [?] para dai mandar os provimentos necessários para a Armada do Estreito e ter de antes servindo um ano à sua custa de feitor da vossa ilha de Barem e pela confiança que dele faria o dito general de o enviar a este Reino com cartas do meu serviço padecendo na jornada muitos trabalhos com risco de sua vida e por esperar dele que da mesma maneira me servirá daqui em diante em tudo o de que foi encarregado conforme a este fiança que faço de sua pessoa: ei por bem fazer-lhe mercê do posto de capitão da Capitania de Cabo Frio para o que servirá por tempo de três anos o qual haverá o ordenado que lhe tocar, por~es e percalços que directamente lhe pertencerem e usará de todas as honras privilégios, franquezas liberdades que em razão do dito posto lhe tocarem pelo que mando ao meu governador das capitanias do Rio de Janeiro que lhe dê a posse dele e o deixe servir e exercitar por o dito tempo de três anos com mais enquanto lhe não lhe for sucessor e haver o dito soldo como dito é e ele jurará em minha chancelaria na forma costumada de que se farŕ assento nas costas desta carta que por firmeza de tudo mandei passar por mim assinada e selada com o selo grande das minhas armas e antes que o dito Francisco Gomes Ribeiro entre na dita capitania me fará por ela pleito e mensagem nas mãos do dito meu governador segundo usos e costumes destes reinos de que apresente esta certidão nas costas desta e pagou de novos direitos doze mil reis que se carregarão aos vencimentos [?] deles Pedro Soares a folhas 83 e outros tantos a quantia de fiança no livro delas na folha 212 verso. Dada nesta corte e cidade de Lisboa aos 14 dias do mês de Dezembro Manoel Pinheiro/Peixoto da Fonseca o fez no ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo de 1678 o secretário André Lopes de Lavra/Laura o fez escrever; principe; o conde de valdereis; por resolução de sua alteza de 29 de abril de 1678 em consulta do conselho ultramarino de 30 de março do dito ano; Luis de Oliveira da Costa pagou 4000 reis aos oficiais 524 [?] Lisboa 12 de janeiro de 1679. Manoel Antunes de Sampaio.
1 A Esquadra do Estreito (algumas vezes referida como a Armada do Estreito) foi criada no final do reinado de Manuel I de Portugal (1520), para proteger a navegação e comércio português nas águas do Norte de África. Era composta por fustas e caravelas, foi uma das três armadas criadas à época. As demais eram a Armada da Costa (com embarcações de maior porte) e a Armada das ilhas, com a mesma finalidade, nas respectivas áreas de atuação.
2 Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, ilha de Ormuz (Estreito de Ormuz), Irão.
3 Fortaleza localizada em Mascate, actual capital de Oman.Localização do Estreito de Ormuz.
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Acrescento mais uma referência a Francisco Gomes Ribeiro, encontrado na tese de Mestrado de Douglas Corrêa de Paulo Santos: Os Amaral Gurgel: Família, poder e violência na América portuguesa (c. 1600 – c. 1725), Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2017, pag. 56-57.
Seu terceiro casamento foi com Francisco Gomes Ribeiro que era natural do Rio de Janeiro. Este foi um militar de carreira servindo no Estado da Índia entre 1665 até 1674, ocupando os postos de soldado, alferes e capitão de infantaria. 139 De volta ao Rio de Janeiro foi capitão-mor da vila de São Salvador de Campos dos Goitacazes e depois de Cabo Frio. 140 Em 1684 tornou-se proprietário do ofício de “contador, inquiridor e distribuidor do Rio de Janeiro” 141 e em 1686 casou-se com Antônia do Amaral.
Um ano depois de casado se tornou dono de um engenho na ilha do Governador. Parece ter se beneficiado coma herança deixada por Antônio Rodrigues Tourinho para seus filhos, em 1692 o Juízo de Órfãos fez com ele escritura de obrigação referente a um empréstimo contraído com a herança de seus enteados no juizado, hipotecando escravos e o engenho Nossa Senhora da Ajuda.
Apesar de sua participação nos negócios do açúcar, também aventurou-se no comércio marítimo. Um documento escrito pelo provedor da Fazenda, Luís Lopes Pegado, em 1699 indica o envolvimento de Francisco Gomes Ribeiro como comprador dos vinhos vindos do reino. Gomes Ribeiro comprou naquele ano barris de vinho vindos na nau do capitão João Moreira Lagos para venda cidade do Rio de Janeiro. 144 Porém a entrada do produto deu-se sem o pagamento de um novo imposto de dois cruzados por barril para o socorro à Colônia do Sacramento. O provedor ao listar todos os compradores recentes das águas ardentes portuguesas que residiam na cidade tinha como objetivocobrar os impostos devidos à Fazenda Real com ajuda do governador Artur de Sá e Meneses.
Muito bom 🥰
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